Nazinha, Nazica: Mestres ribeirinhos criam coleção de moda inspirada no Círio
07/10/2026
(Foto: Reprodução) Mestres ribeirinhos criam coleção de moda inspirada no Círio
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Nossa Senhora de Nazaré é a padroeira da Amazônia, mas, na intimidade dos devotos, também vira “Nazinha”, “Nazica” e outros apelidos carinhosos. Essa relação de afeto com a santa inspirou a nova coleção de moda criada por mestres abridores de letras do Pará para o Círio de Nazaré de 2026, em Belém.
A coleção também celebra palavras que ajudam a reconhecer o Pará pelo jeito de falar. Gírias e expressões como “Égua”, “Mana” e “Pavulagem” aparecem nas estampas ao lado de “Círio” e de referências como “Açaí”, “Marajó”, “Belém”, “Ribeirinha” e “Amazônia”.
As palavras ganharam as cores, sombras e formas características dos abridores de letras, mestres ribeirinhos que mantêm a tradição de pintar e ornamentar os nomes das embarcações de madeira que navegam pelos rios da região.
Coleção de Círio traz estampas criadas por mestres abridores de letras do Pará
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A coleção foi desenvolvida pelo Instituto Letras que Flutuam em parceria com os mestres. As estampas aparecem em camisas e outros produtos, e a renda obtida com as vendas é destinada aos artistas associados ao Instituto.
Para Fernanda Martins, fundadora do Letras que Flutuam, o Círio reúne diferentes manifestações da cultura paraense.
“O Círio é um espetáculo da cultura popular que reúne muitos sotaques: vem gente do mundo todo. E é uma celebração do povo paraense, com a cara dessa fé cabocla, com essa estética amazônica. Uma arena onde diversas manifestações da cultura regional também se encontram, como a grafia dos abridores de letras, os brinquedos de miriti, e tantas outras linguagens que derivam da tradição ribeirinha”, afirma.
Mestres ribeirinhos assinam a coleção de camisas e itens de moda inspirados no Círio de Nazaré
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O jeito paraense de falar
As palavras escolhidas para a coleção percorrem a devoção, o território e o vocabulário paraense.
“Nazinha” é uma das formas afetivas usadas para se referir a Nossa Senhora de Nazaré. A proximidade dos devotos com a padroeira também aparece em outros apelidos, como “Nazica” e “Naza”.
Já “Égua” está entre as interjeições mais marcantes do vocabulário paraense e pode ganhar diferentes sentidos conforme a situação e a entonação, expressando surpresa, admiração, espanto ou indignação.
“Mana” é usada informalmente como forma de tratamento. “Pavulagem”, por sua vez, pode estar associada à exibição, à vaidade ou ao comportamento de quem gosta de chamar atenção.
“Curumim”, palavra de origem tupi, significa menino ou garoto. “Caboco”, grafia escolhida para uma das peças, é uma forma usada no Pará para “caboclo”.
Outras palavras das estampas apontam para lugares, símbolos e referências da região, como “Marajó”, “Belém”, “Açaí”, “Amazônia” e “Ribeirinha”. O próprio “Círio” também aparece entre as criações feitas especialmente para a coleção.
Letras que vêm dos rios
A grafia usada nas peças tem origem no trabalho realizado pelos abridores de letras nas embarcações amazônicas. São esses artistas que pintam e ornamentam os nomes dos barcos de madeira, combinando letras, cores, sombras e desenhos.
O conhecimento é transmitido entre gerações, e os mestres desenvolvem características próprias no desenho das letras e nos ornamentos.
A pesquisa que deu origem ao Letras que Flutuam começou em 2008. O Instituto foi criado em 2024 e atua com pesquisa, documentação, formação e geração de renda relacionadas à cultura gráfica ribeirinha.
O uso das letras dos mestres em produtos é anterior à coleção do Círio. Desde 2023, o Instituto desenvolve peças em parceria com os artistas. Em 2026, a nova coleção foi criada a partir da festividade e de referências da cultura paraense.
“São produtos que se tornam uma ótima oportunidade para valorizar a cultura tradicional em prol dos detentores desse saber, que são os mestres ribeirinhos. É uma maneira da gente incluí-los no mercado da moda, gerando renda e reconhecimento”, afirma Fernanda Martins.
Além das camisas, o trabalho dos mestres aparece em ecobags, cadernetas, adesivos, letras impressas e placas decorativas pintadas à mão.
Onde encontrar
A coleção pode ser encontrada no Canto das Letras, na Travessa Rui Barbosa, 257, sala 3, na Vila Prana, bairro do Reduto, em Belém. Durante o Círio, o espaço funciona de segunda a sexta-feira, das 9h às 17h.
As peças também são vendidas pela rede social do Instituto Letras que Flutuam.
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